Sociedade Datificada: Privacidade, Desinformação e ativismo no ciberespaço

Para discutir este tema, usamos como referência as informações sobre o escândalo da Cambridge Analytica, e atualizações dos processos judiciais em que a empresa está arrolada nos dias de hoje.

O escândalo que envolveu a atuação da Cambridge Analytica nas campanhas políticas de partidos de extrema direita ocorreu em virtude de a empresa ter sido responsável pela produção e disseminação de conteúdos que causaram grande impacto nas decisões eleitorais das populações em muitos países diferentes, utilizando-se de ferramentas diversas para disparar informações falsas sobre acontecimentos, ajudando a impulsionar discursos de ódio contra candidatos de oposição, e atacar seus valores defendidos. Candidatos com interesse em conquistar votos nas eleições a qualquer custo, financiaram com muito dinheiro as campanhas promovidas pela empresa Cambridge Analytica para manipular a opinião do público.

Ao analisar o comportamento de alguns dos principais envolvidos no escândalo, pudemos notar como o posicionamento destas pessoas mudou com o passar do tempo. Por um lado, Alexander Nix, à época CEO da Cambridge Analytica, não demonstrou, ao longo de anos de investigação sobre o caso, preocupação sobre o impacto da manipulação concretizada pela empresa. Ele parece não se sentir responsável pelos danos que a disseminação de conteúdos enganosos poderia gerar na democracia dos países atingidos, nem remorso algum pela utilização dos dados pessoais dos usuários obtidos ilegalmente. Por outro, vemos a figura de Brittany Kaiser, que teve fundamental papel nas campanhas realizadas pela Cambridge Analytica, mas posteriormente ajudou no vazamento de informações que confirmavam as reais intenções por trás das campanhas.

Brittany Kaiser mudou seu comportamento a partir do exercício de reflexão e questionamento sobre o seu papel na empresa, mudando radicalmente suas atitudes em relação ao caso, de forma a favorecer o interesse das sociedades que ela mesma havia ajudado a polarizar no passado.

Para além da mudança de discurso, Kaiser realizou novas ações que condiziam com essa nova forma de olhar para a Cambridge Analytica e seus impactos na sociedade. Após os primeiros vazamentos e denúncias por parte de Christopher Wylie, ela entregou diversos documentos que comprovavam o envolvimento da empresa em diversas campanhas de disseminação de informações falsas, e colaborou ativamente nas investigações. Hoje, ela lidera a Fundação Own Your Data, voltada à conscientização relativa à privacidade e segurança de dados, e também é co-fundadora da Digital Asset Trade Association (DATA), uma organização sem fins lucrativos que auxilia na criação de legislação relativa a privacidade de dados. Mais recentemente, Kaiser está participando de uma série educativa sobre o mesmo tema, intitulada Privacy by Design.

Por fim, destacamos a importância da ocupação do ciberespaço para o ativismo. Hoje o ciberespaço é ocupado, em sua maior parte, por empresas preocupadas somente com o lucro. Desta forma, identificamos que se faz necessária a ação em busca da mudança deste espaço para um formato que beneficie de fato os interesses da sociedade, e não de apenas de alguns grupos seletos, colocando estas ferramentas a serviço do bem comum.

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Gurdjieff
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2 comentários em “Sociedade Datificada: Privacidade, Desinformação e ativismo no ciberespaço”

  1. Obrigado por ter apresentado esta oficina, Sofia Xavier e Marcelo Canesin. Ficou bem evidente, no decorrer de sua apresentação, o aprendizado de que a tomada de decisão nas governanças (e indiretamente nas relações pessoais) espelha nossas decisões individuais. Sendo assim, sua apresentação proporcionou em mim, por exemplo, mudança imediata nas ferramentas com as quais sirvo a comunicação em minha existência. O mais importante é olhar para dentro, a partir do conhecimento da história de vida de Brittanys Kaisers, e ter agora o dever de estar atento a identificar desvios em meu propósito e naqueles próximos a mim, a fim de não repetir a história em outro contexto. A redenção jamais remove a problemática que poderia ter sido evitada e dificultou a vida das pessoas para sempre.

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  2. É dramático observar os impactos destrutivos que a manipulação dos dados gerados pelas nossas atividades digitais, principalmente em redes sociais, tem causado nos diversos cantos do mundo. Além de o uso em si dessas redes já acarretar diversos malefícios para as relações sociais e formação das subjetividades das pessoas (malefícios que estudamos e aprendemos no PEP, em outras oficinas e ocasiões), ainda é fonte para essa coleta e uso de dados para sofisticar as técnicas de comunicação e manipulação dos navegantes. Este é um dos episódios graves que envolvem essas empresas de tecnologia e, a partir da oficina, vocês puderam nos fazer refletir sobre o nosso papel nesta realidade. Além de nos atentarmos para os nossos usos das tecnologias e mídias (e para além de apenas não utilizar as redes sociais), a discussão conduzida nesta oficina destaca a importância de sermos atuantes em nossos meios para levar a discussão e reflexão sobre os danos causados por essas empresas e suas atuações. Alerta também sobre o ponto fundamental de percebermos em nossas próprias vidas para quais propósitos estamos servindo com as nossas ações, de modo que não acabemos alienados e cooptados como a Brittany e tantas pessoas neste mundo em que a lógica do individualismo e da competitividade imperam. Obrigado Marcelo, Sofia, Mestre, diretoria e a todo o PEP pelas discussões nesta e noutras oficinas deste ano de 2020!

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