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Once Again: o eterno retorno

Texto escrito por Gabriela e Sofia Introdução e apresentação da coluna Na virada de 2019 para 2020, Mestre Rohm nos proporcionou uma reflexão por meio do texto: “Virando a página ou abrindo o livro novo?”. Nesse texto (que convidamos a todes que leiam novamente e, aos que ainda não leram, que o façam pela primeira…

Once again

Texto escrito por Gabriela e Sofia

Introdução e apresentação da coluna

Na virada de 2019 para 2020, Mestre Rohm nos proporcionou uma reflexão por meio do texto: “Virando a página ou abrindo o livro novo?”. Nesse texto (que convidamos a todes que leiam novamente e, aos que ainda não leram, que o façam pela primeira vez), ele nos perguntou se a entrada em 2020 seria a virada de uma página ou se revelaria o início de uma nova história. Nós não imaginávamos tudo que estava para acontecer em 2020. Hoje sabemos que, como Mestre considerou, um novo mundo se aproximava e seria impossível retornarmos ao que existia anteriormente. A pandemia começou trazendo para o nosso cotidiano a vida em quarentena e permanecemos isolados fisicamente uns dos outros por cerca de 2 anos. Apesar do sofrimento inesperado, graças ao Mestre, encontramos esperança e muitas aventuras, conhecendo e aprendendo a apreciar, em um projeto de desenvolvimento humano, o cinema, a música e várias culturas asiáticas.

Foi também em 2020 que nós (Sofia e Gabriela) começamos a nos aproximar e foi, sobretudo, por meio do cinema asiático a partir dos belos olhos de Mestre Rohm, que tivemos a doce e transformadora oportunidade de aprender, juntas e com outros colegas, sobre a vida, os amores, o sofrimento dos oprimidos, a sede de justiça e de redenção, a beleza que é fundamentalmente triste e a busca do que é belo, justo e bom na vida. Hoje conseguimos ver que realmente abrimos um novo livro em 2020 e agora nos sabemos menos sós. (Muito obrigada, Mestre! <3)

Hoje, nos sentimos mais capazes de afirmar a vida junto com o início desse novo ciclo que se abriu em 2023, também sentimos o desejo de contribuir com o site do PEP compartilhando uma parte singela de tudo que tivemos a honra de aprender com Mestre Rohm e, a partir disso, uns com os outros. Nesse contexto, decidimos escrever esse texto, e pretendemos escrever outros, com o objetivo de apresentar discussões e reflexões acerca do cinema, música, a cultura em geral, e a história dos diversos países asiáticos. Hoje, gostaríamos de trazer nossas reflexões sobre Once Again, uma minissérie sul coreana que Mestre nos recomendou em 2022. 

Once Again é uma obra complexa, potente, bela e transformadora. Retrata duas vidas que a partir de seu encontro, possibilitaram o nascimento do sentido para cada uma delas. A série nos permitiu refletir sobre muitos ensinamentos de Mestre, mas principalmente a respeito de como a ética nasce e renasce sempre de entregas. Nós vivemos em um mundo que está afundado em uma crise de empatia. Aqui no Brasil, vivemos de acordo com valores que nos ensinam e estimulam o individualismo e o isolamento. Once Again nos traz uma perspectiva muito diferente sobre a tomada de decisões que fazem sentido. Nessa obra, os protagonistas nos ensinam o valor e a importância da existência do outro para encontro do sentido na sua própria vida.

Se eu (Gabriela) tivesse que destacar dois pontos principais que a obra retrata, esses seriam o amor enquanto servir ao outro, e a gratidão como demonstração de amor, que também nos leva a reciprocidade no servir. Um sacrifício de uma personagem, faz a outra crescer sentindo gratidão e constrangimento, pois um abriu mão de um futuro próprio em prol do futuro do outro. Essa gratidão é tão sincera e real, que a personagem que inicialmente foi cuidada, agora precisa voltar para devolver o bem que recebeu. O mais interessante de tudo, é que essa obra retrata de uma maneira ímpar — que não podemos dizer para não dar spoiler — como existe um ciclo virtuoso no servir e na gratidão. Porque quando o personagem que antes foi servido, decide, por gratidão, voltar para retribuir, é nessa decisão de se sacrificar por quem se sacrificou por ele, que ele garante a oportunidade de continuar vivo. 

Once Again nos ensina que cuidar do outro é cuidar de si mesmo. Também nos ensina que a vida faz mais sentido quando não estamos sozinhos no mundo, quando nos doamos e vivemos para algo além do nosso próprio umbigo, para servir a um propósito virtuoso. Além disso, a obra me lembrou muito de Matrix Revolutions, especialmente de uma cena em que Neo tem que refazer a escolha de confiar na Oráculo. A Oráculo diz que o verdadeiro teste de uma escolha é ter que tomar uma decisão com a consciência do que ela pode te custar. Podemos considerar muito difícil tomar uma decisão sem termos a certeza de que tudo vai se sair bem. Crescemos e somos educados a agarrar o controle e buscar certezas. Ainda assim, tomar uma decisão que você sabe que vai te custar muito talvez seja a escolha mais difícil, mas ao mesmo tempo, é quando se sabe se alguém realmente é dono de si e de suas escolhas. Quem está no controle do próprio corpo e vive em busca de sentido e prazer, sabe da importância de se fazer o que é necessário e não o que é agradável. Once Again nos mostra a beleza e a potência dessa escolha, e nos dá uma excelente lição do que é a ética, o que é o amor enquanto servir, e o que é a gratidão, que te faz agir com o propósito de servir e se sacrificar porque alguém também se sacrificou por você. É um ciclo. 

Para mim (Sofia), essa série só deixou de ser algo doloroso e brutal para se tornar uma obra bela e transformadora quando comecei a discutir com a Gabriela sobre a doutrina do eterno retorno de Nietzsche1. Os dois protagonistas da série, ao escolherem servir um ao outro, escolhem também o eterno retorno, ou seja, sempre que eles têm a possibilidade de tomar uma decisão, eles tomam a mesma decisão que tomaram antes, reforçando o próprio destino. Te parece estranho fazer a mesma escolha se você tivesse a chance de voltar ao passado para decidir como será sua vida novamente?

Um ensinamento que Mestre reforça muito é a busca pela integridade, e isso pode ser percebido nos personagens de Once Again. No fim das contas, ambos conseguem um alinhamento entre mente e coração, e isso faz com que suas ações reflitam exatamente aquilo que eles sentem, pensam e querem, por isso não existe dúvida quando chega o momento de tomar uma decisão sobre sua vida. Neste ciclo, eles aprendem a afirmar a própria existência e amar o necessário, abraçando as contradições e compreendendo os limites da vida e, ao mesmo tempo, o potencial transformador das suas escolhas. 

Nietzsche afirma: “quando a vida exige o mais pesado é quando ela se torna mais leve”. Muitas vezes, quando chegamos ao limite do sofrimento é que acabamos, de fato, mudando para deixar de sofrer com uma situação que não está no nosso controle. Da mesma forma, escolher o esforço constante de tomar consciência sobre os efeitos das nossas pequenas escolhas diárias também abre espaço para que encontremos sentido e um propósito na nossa existência, e é exatamente essa a escolha dos protagonistas de Once Again. Ao se darem conta daquilo que é necessário para que eles possam ser íntegros, eles tomam a única decisão possível, e a vida se torna mais leve após exigir o mais pesado de ambos.

De uma maneira bastante intrigante, Once Again nos revela o ensinamento de que o “eu” precisa do “outro” para existir, e nos ajuda a entender um pouco melhor como a sociedade asiática é educada para um comportamento mais voltado à ética e à valorização do bem comum, em que as pessoas não esperam “se dar bem” em todas as situações, mas sabem da importância de manter os outros bem também, privilegiando um resultado ganha-ganha. Isso me faz pensar também nos samurais, pois uma vez Mestre recomendou um filme chamado The Last Samurai, que retrata o Japão feudal. Nesse filme aprendemos sobre como os samurais vivem em prol daquilo pelo qual vale a pena morrer, para que quando a morte, que é inevitável, chegue, que ela seja um momento de honra e não de arrependimentos. Em síntese, é um grande ensinamento de como o amor, o servir e a gratidão se interligam em um ciclo que gera e protege a vida, fortalecendo o coletivismo em detrimento do individualismo, o que possibilita a construção de sentido para a vida e a continuação do legado dos nossos Mestres. 

1 O blog Razão Inadequada escreveu alguns textos sobre esse conceito de Nietzche. Os três a seguir são nossas recomendações para quem não conhece seu significado:

Nietzsche – Eterno Retorno do Mesmo

Nietzsche – Como tornar-se um Destino

Nietzsche – amor fati

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  • Inspiração:
    George Bernard Shaw

    O progresso é impossível sem mudanças, e aqueles que não são capazes de mudar sua própria mente não podem mudar nada.

2 respostas

  1. Avatar de

    Meus parabéns a Sofia e Gabriela pela belíssima e sábia postagem. Ela reflete o amadurecimento de suas reflexões e posicionamentos diante da vida. Nosso projeto de desenvolvimento humano, levado a efeito durante a pandemia do COVID19, atesta a riqueza do cinema para além da própria apreciação da Sétima Arte, mas sobretudo, seu eterno poder de reflexão e de transformação da vida das pessoas.
    Que esta seja a primeira de tantas outras postagens as quais, a partir do cinema, em sentido mais amplo, possam contribuir para o desenvolvimento humano de tantas outras pessoas que navegam no PEP. 🤩

  2. Avatar de Marcelo Canesin

    Adoráveis, parabéns pela postagem 👏👏👏 Incrível a relação que vocês fizeram com o Eterno retorno de Nietzsche. A série é bela ao retratar a vontade das personagens se tornarem aquilo que são… Nesse processo, elas certamente não vivem o que vivem na esperança de futuramente serem retribuídas, como se tivessem algum lugar no céu guardado para suas boas ações. Elas fazem o que fazem justamente porque sabem que é necessário fazer para se tornarem o que são.

    A pergunta de Nietzsche, que vocês trouxeram, – se estaremos prontos para viver eternamente a vida que escolhemos para nós – é tão fundamental… Ele nos obriga a refletir em relação a cada passo que damos, em que direção estamos caminhando. No processo de matar a Deus, Nietzsche mata com ele tudo o que a presença desse “alento” possa influenciar em nossas vidas. Assim, deixamos o caminho aberto para a afirmação da busca de si.

    Deus não existe. Nesse caso, é melhor se arriscar a viver a vida com todas as dores da busca de si, tomando-se as rédeas de nosso próprio destino. Como Mestre sempre nos lembra, é preciso fazer para ser. E o fazer envolve enfrentar todos os riscos. É a chance que temos de construir a nossa própria obra, como, ao assistir a série, tivemos a oportunidade de ver as personagens fazerem, no futuro do passado, num tempo em que tiveram uma segunda chance para retornar e fazer aquilo que era necessário para morrerem sem arrependimentos.

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