A Cruel pedagogia do vírus: capitalismo, meio-ambiente e pós-pandemia


Boaventura, em seu mais recente livro e em uma transmissão ao vivo de lançamento da obra, cita e discute sobre a pedagogia do vírus. Sobre qual pedagogia Boaventura se refere; o que se ensina e o que se aprende neste novo período que se iniciou no ano de 2020 e perdura repleto de incertezas?
Claudia Gonçalves, em seu texto “O mundo pós pandemia e a emergência de lideranças transformadoras”, nos ofereceu neste blog excelentes contribuições para se pensar o tamanho do nosso atual e histórico desafio, resgatando diversas reflexões de intelectuais para refinar o nosso diagnóstico e estimulando-nos a pensar um outro mundo pós-pandemia. Nesse cenário, é ainda mais urgente a necessidade de mais lideranças comprometidas com a transformação da nossa realidade. O tema também foi analisado neste mesmo site por Gabriela Costa em seu texto “A cruel pedagogia do vírus: transformando o medo em esperança”, em que contribuiu de forma muito enriquecedora ao analisar a crise atual pela perspectiva de lideranças dos povos originários, articulando questões de grande relevância para se pensar como chegamos até aqui.
A nossa 1ª Oficina Virtual de Desenvolvimento Humano, realizada no mês de maio de 2020, buscou aprofundar essa discussão suscitada ao iniciar da pandemia, mas convidamos a todas e todos a continuarmos o seu desenvolvimento neste blog. Alternativas e saídas a essa crise que parece infinda também foram abordadas de modo inspirador com a estimulante discussão realizada na 4ª Oficina Virtual de Desenvolvimento Humano, sobre a Autogestão individual e coletiva. Afinal, quais são os desafios individuais e, sobretudo, coletivos que se colocam para nós?
A argumentação feita por Boaventura nos sugere que o desígnio de tornar o sistema em que vivemos, o capitalismo em sua fase neoliberal, mais humano é uma impossibilidade. Essa ideia teria, segundo o sociólogo, desmanchado no ar a partir das diversas fragilidades estruturais das nossas sociedades que ficaram ainda mais explícitas neste momento atual de sobreposição de crises. A transição para um outro modo de organização social se coloca, portanto, como uma necessidade imperativa diante de nós.
Embora o capitalismo cause danos ao planeta como um todo, existem diversos grupos de pessoas de todo o mundo que têm em comum vulnerabilidades especiais e que sofrem mais as consequências da exploração capitalista. Essas fragilidades se agravaram ainda mais durante esse período de quarentena e Boaventura chama esses grupos de “sul da quarentena”. Citando alguns exemplos, o sul da quarentena são os povos originários, os trabalhadores informais e uberizados (Apenas na América Latina, cerca de 50% dos trabalhadores são informais segundo a Organização Internacional do Trabalho), as mulheres, os idosos, os moradores das periferias pobres do mundo, os imigrantes indocumentados e as populações de rua.
É importante, ainda, levar em consideração que existem pessoas que estão inseridas em mais de um desses grupos. Todas essas pessoas pertencem ao lado sub-humano do mundo e enquanto são exploradas e discriminadas pelo capitalismo, têm seu sofrimento tornado invisível e ausente. A pandemia trouxe visibilidade para essas fragilidades embora reforce a exclusão e exploração existentes. Um sistema que passa por crises recorrentes e que para funcionar cria e se aproveita da desumanização das pessoas pode ser humanizado?
Essa descrença na humanização do sistema capitalista, embora não seja nova e já tenha sido argumentada por diversas figuras de nossa História, pode nos parecer, em um primeiro momento de reflexão, infrutífera e até mesmo excessivamente abstrata frente aos problemas tão urgentes que vivenciamos. Seria possível, porém, compreender a nossa realidade e diagnosticar os nossos desafios sem considerar a lógica desse sistema que rege as nossas sociedades de forma cada vez mais totalizante? Quais são os seus impactos para as relações sociais?
E se essa reflexão fosse, então, o nosso ponto de partida de uma discussão em que se pense qual sociedade desejamos criar e vivenciar nesta transição? E qual é o nosso papel neste contexto em seu sentido tanto global quanto particular? Como devemos agir de modo a não deixar que esta afirmação de Boaventura seja tão somente uma ideia, mas se torne concreta por meio de nossa ação no mundo? Em que medida nós agimos de modo a perpetuar essa lógica ou a negar a base do seu funcionamento, o lucro, a exploração e a mercantilização da vida? Quais valores cultuamos em nossas ações e o que orienta as nossas decisões?
Ainda falando sobre humanização e capitalismo, é também possível justificar a incompatibilidade das duas ideias com o impacto que a humanidade causou no meio ambiente desde o início da Revolução Industrial. Na obra de Boaventura e em sua live ele explica como a lógica do capital baseada na exploração irrefreada de recursos naturais e sua extração para obtenção de matéria-prima, além do jugo do trabalho de pessoas em condições desfavoráveis contribuiu para a destruição gradual do meio ambiente e para o aumento da desigualdade social. Assim, causou-se um desequilíbrio cada vez maior no planeta, com a destruição de biomas, mudanças climáticas, além da destruição de comunidades indígenas e extinção de espécies de animais. Resultou-se no aquecimento global, nos desastres ditos ambientais, e no aparecimento de epidemias e pandemias novas. Boaventura afirma muito corretamente que os governos neoliberais são muito bons em destruir, mas muito ruins em construir.
No Brasil, a destruição dos biomas naturais cresce alarmantemente junto à ausência de lideranças que considerem as políticas de preservação ambiental como prioridade em suas decisões na gestão republicana. Assim, como disse Boaventura em sua live, a crise política piora a crise ambiental já existente. Sonia Guajajara, durante a live, ressalta que nesse cenário a luta dos povos originários tem duas frentes: a guerra contra o Coronavírus e a guerra histórica contra as invasões em seus territórios, os assassinatos e o desmatamento causados e estimulados por um projeto antidemocrático, reacionário. A luta indígena e a luta ambiental são uma só, ela afirma.
A solução apontada no livro de Boaventura é a reconexão com a Mãe-Terra, ou seja, que cada um restabeleça sua conexão pessoal e coletiva com o meio ambiente. Como podemos fazer para estabelecermos esse laço na prática? Que ações no dia a dia podemos aplicar e mudar para que sejamos mais sustentáveis e preservemos o nosso planeta? Vamos manter o status quo do nosso modelo de desenvolvimento ou vamos criar alternativas que sejam capazes de gerar uma integração entre a ação humana no Planeta e a preservação de seus recursos naturais? Cada um deve se perguntar como será sua atuação pessoal e coletiva a partir de agora, visto que o estrago já está feito e não é pequeno. Será ainda possível remediá-lo? Estaremos nós mais bem preparados para as próximas pandemias ou manteremos o nosso padrão de comportamento?
Ao refletir no que o nosso querido Professor Doutor e Mestre Ricardo Rohm escreveu em seu texto, “MATRIX e a maioridade”, podemos nos perguntar se essa pandemia não é apenas mais uma triste e avassaladora consequência da crise civilizatória que vivemos sob o sistema capitalista neoliberal, na qual as pessoas não possuem nenhum senso de responsabilidade individual e coletiva. Até quando será que escolheremos continuar nos iludindo ao ponto de acreditar que não somos responsáveis pelos males que causamos ao planeta e à humanidade? Até quando aceitaremos lideranças descompromissadas com o coletivo e que agem apenas pela gestão da imagem?
Enquanto decidirmos continuar servindo como geradores de dados que alimentam a Matrix da “pós realidade”, confortáveis na ilusão de mostrar a imagem perfeita de si (que não existe), de acreditar na inevitabilidade do mal e na impotência para transformarmos os cenários perversos, ao invés de aceitarmos as lutas – individuais e coletivas – que precisamos enfrentar e vencer para resgatar a nossa humanidade, a situação tende a agravar-se até chegar ao ponto em que seremos forçados ainda mais dolorosamente a mudar – se tivermos a sorte (?) de ter mais oportunidades! Não precisamos esperar uma nova pandemia – talvez ainda pior que a atual – surgir para decidirmos abrir os olhos e despertar para as transformações sociais que nosso planeta exige, transformações estas que começam em cada um de nós.
Por isso, mais uma vez, é importante reconhecermos e agradecermos o propósito belo e transformador do PEP e de Mestre Rohm, que investe no desenvolvimento humano dos alunos, orientandos e discípulos, para que estes possam, também, contribuir para a humanização da nossa sociedade que tanto carece de lideranças transformadoras, íntegras e comprometidas com a coletividade. Qual é a transformação que desejamos ver no mundo e como essa transformação pode começar em nós?


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Inspiração para o comentário:
Lembre-se de que você veio aqui, porque compreendeu a necessidade de lutar contra si mesmo. Agradeça, portanto, a quem lhe proporcione a ocasião para isso.
Gurdjieff
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