A relação Mestre e discípulo (por William Freire Ribeiro)

A palavra “mestre” carrega um peso que pode confundir quem a escuta. No ocidente, a palavra “mestre” está associada a três sentidos. O primeiro deles é o reconhecimento do grau de mestre, acadêmico, àquele que conclui o mestrado e se torna mestre ou como chamamos ao professor. No meio acadêmico, ou profissional (fora do circuito acadêmico), encontram-se pessoas que possuem esse grau, o expõem em seus currículos e redes sociais, e isso é muito bem visto pelas pessoas. O segundo é utilizado por aqueles que praticam artes marciais, nas quais o Mestre provou ser alguém experiente nessa arte e foi intitulado por meio de demonstrações e exames. Já o terceiro, é uma maneira pejorativa de chamar certos gurus, podendo ser encontrada em várias partes do mundo e praticada por pessoas que se dizem espiritualistas. No entanto, neste texto desejo abordar uma relação mais antiga, a qual envolve um Mestre e um discípulo: do valor dessa relação atrelado ao desenvolvimento de uma pessoa e ao propósito, mesmo que certas pessoas não a compreendam, por diversas razões.

Essa forma antiga de relação é um legado de longos anos, atravessada pelo tempo e cultivada em diferentes culturas, podendo se diferenciar em alguns aspectos, mas conectada em essência por certas características. 

Uma dessas características é o sentimento de afeto e/ou de respeito dessa relação. Inicialmente, um ou o outro podem estar presentes, mas ao longo da convivência, o cultivo desses dois sentimentos reverbera de tal forma que outros elementos se encontram como o amor, a obediência, a liberdade, a disciplina, o sentido do legado, entre outros dependendo da construção dessa relação e da linha filosófica seguida. Vale ressaltar que a observância do elemento “obediência” está ligada uma forma madura de se relacionar com aquele que foi escolhido para ser o Mestre, não se tratando de seguir orientações de forma cega. No desenvolvimento humano se deseja expandir a consciência, não a talhar.

Outra característica é o Mestre ser percebido pelo discípulo como alguém que possui um conhecimento que o levará ao seu desenvolvimento. Apesar do discípulo desejar se desenvolver, esse sentimento não se trata de um utilitarismo ou adquirir vantagens do conhecimento alheio. É um desejo genuíno de aprender e se aprimorar.

Até aqui, já se percebe que essa forma de desenvolvimento tem um outro olhar e é bastante singular. Essas características são importantes para a compreensão de uma tradição que não se faz tão presente nos dias de hoje, mas tão importante para que outras pessoas saibam dessa vivência e, se tiverem a oportunidade de vivê-la e escolhê-la, poderão se identificar com uma visão de mundo que dá sentido à vida e, também, responsabilidade. Aliás, nessa noção de responsabilidade, quem escolhe o Mestre é o discípulo. É uma escolha de comprometimento consigo e respeito com o trabalho de quem desenvolve, pois é daí que se constrói uma base ética de como essa relação se desenvolverá e também para todas as outras características da relação Mestre discípulo. Assim, não cabe dizer que os discípulos são parte de “fã-clubes” ou qualquer fala relacionada nesse teor, pois existe uma fundamentação ética de respeito, de tradição, cujos valores estão expressos na lealdade, e não no culto à celebridade ou fama.

O desenvolvimento de si é outra particularidade dessa relação. Quando o discípulo escolheu o Mestre, o desejo de melhorar como pessoa vai influenciar numa mudança de si, pois o olhar não será mais o mesmo, a visão de mundo, os valores e o foco tomarão direções diferentes daquelas que o discípulo tinha antes. As pessoas notarão essas mudanças ocorrerem e é bastante comum elas estranharem. O foco no desenvolvimento de si faz parte desse comprometimento com o trabalho do Mestre. É algo que exige trabalho, tempo e energia. Com uma visão de mundo diferente, os hábitos dos discípulos irão se modificar também, uma vez que não dá para ser diferente e agir igual a antes. É incoerente com o trabalho de desenvolvimento. 

O que manteve vivo até hoje esse conhecimento da relação Mestre discípulo é o cultivo do legado do trabalho dos Mestres. O legado é o que permite diversas obras chegarem ao conhecimento das pessoas e, por meio delas, as pessoas que se identificarem com tais obras e feitos poderão buscar a inspiração e o desejo de se desenvolverem. As obras de diversos Mestres influenciaram e influenciam até hoje as pessoas. Como seria a vida dessas pessoas caso não tivessem tido esse contato e identificação? Particularmente, é como se algo estivesse fora de lugar e a busca por esse desenvolvimento tomasse um rumo mais difícil. 

Permitir que esse legado chegue às outras pessoas é trabalhar em prol da obra do Mestre, reconhecendo todo seu trabalho e a pessoa que o desenvolveu. Caso isso não fosse passado adiante, muitas outras pessoas não teriam a oportunidade de se desenvolver, inclusive quem lê esse texto. 

O Mestre não precisa do conhecimento, pois ele já o tem, mas é evidente que não sabe tudo, e aprenderá juntamente com seus discípulos, a fim de alcançar maiores patamares, buscando levar e elevar a todos em sua volta, para que aqueles antes discípulos possam um dia se tornar possíveis Mestres.

Gostaria de ressaltar que a cultura Ocidental atribui muito pouco valor ou quase nenhum a esse tipo de relação. A ostentação e deturpação de diversas pessoas utilizando o título de Mestre e guru permitiram que o charlatanismo e o mau caratismo fizessem parte da imagem e ideia da palavra “Mestre”, por vezes descreditando uma real relação Mestre – discípulo.

Portanto, é sugerido que com certos públicos, o discípulo saiba atribuir o título mais coerente com a situação. No momento atual do século XXI, década de 20, as palavras professor ou mentor são melhor compreendidas pelas pessoas. 

Atenção discípulos! Considerar a alguém como Mestre pode mexer bastante com o ego e a inveja de outras pessoas. Algumas pessoas não entendem, e não querem entender, a razão de uma pessoa ser chamada de Mestre. Vão cultivar sentimentos estranhos, passarão a dizer (pasmem!) que o discípulo está sofrendo de lavagem cerebral, terão ações hostis, disfarçadas ou não, entre outras narrativas que não condizem com a visão de mundo de desenvolvimento pessoal e humana dentro de uma relação Mestre e discípulo. 

A principal razão para o discípulo ser reconhecido não são só suas boas qualidades, o respeito, as boas maneiras, as atitudes e formas de agir. Tampouco pela sua curiosidade e fome de aprender sempre mais, nem sua força de vontade ou carisma. O entendimento para que o discípulo seja tal, é a escolha do seu Mestre. E ao Mestre, ser reconhecido não pelo conhecimento, inspiração, força, cordialidade e amor, mas por que ele foi o escolhido para o ser.

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1 comentário em “A relação Mestre e discípulo (por William Freire Ribeiro)”

  1. A relação genuína entre Mestre e Discípulo é uma das grandes perdas desse mundo ocidental, fragmentado, líquido ou seja la como for chamado. Há algo de muito humano nesse encontro que não vemos mais nos dias de hoje. Certamente Mr. Bil. Para além de qualquer conhecimento que possa ser passado, consumido ou aprendido, a relação entre Mestre e discípulo esta perdida, talvez, como nunca antes. Obrigado pelo texto mais do que sensível aos desafios que nos estão postos. O momento demanda todo reconhecimento aos nossos Mestres e aos valores semeados a tanto tempo, por tantos outros, que eles nos passam. Que tenhamos muita disciplina para colher os frutos dessa jornada!

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