A cruel pedagogia do vírus: transformando o medo em esperança


Dia 07 de maio eu assisti uma live que contou com a presença do professor e sociólogo Boaventura de Sousa Santos, de Sônia Bone Guajajara, liderança da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e de Silvia Ferraro, professora da rede municipal de São Paulo. A live tinha como objetivo apresentar as questões levantadas por Boaventura Santos em seu novo livro intitulado “A cruel pedagogia do vírus”, com prefácio escrito por Sônia Guajajara. Narrarei abaixo as discussões dessa live relacionando-as com as discussões de outra live, que aconteceu no dia 1° de maio denominada “Programa de escuta – Povos indígenas pedem socorro”, a qual contou com a participação da linguista e cacique Omagua-Kambeba Eronildes Fermun Omagua, mestranda no Museu Nacional/UFRJ e, também, de Boaventura.

Boaventura iniciou o painel do dia 07 introduzindo as principais ideias de seu novo livro. Disse que no momento é comum comparar a pandemia com a crise de 1929 ou com as grandes guerras mundiais, pois é um período no qual o capitalismo está em muita evidência e observação. Nos últimos 40 anos, o neoliberalismo defendeu que os mercados eram a solução para os problemas humanos, pois são racionais. Ao mesmo tempo, defendeu que os Estados são ineficientes e corruptos e deveriam, portanto, ser reduzidos o máximo possível. Mas atualmente, em meio à pandemia, ninguém está pedindo ajuda dos mercados e, em contrapartida, as pessoas estão morrendo e pedindo proteção para os Estados – que sucatearam seus sistemas públicos de saúde ao longo do tempo (o SUS é um exemplo) e encontram-se incapacitados de proteger seus cidadãos.

Neste contexto, mostra-se clara a oportunidade e a necessidade de voltarmos a tratar da saúde, da educação e da previdência públicas como investimento e não como custo. Até porque, há uma ligação quase direta entre o aquecimento global, o agravamento da crise ecológica e possibilidades de novas pandemias surgirem. Mostra-se também muito urgente e necessário, rever o modelo de desenvolvimento predatório assumido pelo sistema capitalista, que destrói o meio ambiente por meio da contaminação das águas e poluição do mar, do desmatamento das florestas e do extermínio da cultura e dos povos indígenas desde o início da colonização.

Claudia Gonçalves, diretoria de Estratégia e Marketing do PEP-ROHM, compartilhou um texto que escreveu sobre a pandemia como um dos produtos do capitalismo globalizado e os desafios do mundo pós pandemia, texto que também apresenta uma alternativa sustentável ao modelo desenvolvimentista que destruirá a humanidade e o planeta, caso seja levado adiante.

Para superarmos a pandemia e a crise planetária gerada pelo capitalismo, Sônia Guajajara e Boaventura apontam para o modo de vida dos povos indígenas como exemplo, mostrando que não é necessário inventar a ecologia política, ela já existe, só é ignorada e discriminada. Sônia falou que as pessoas se afastaram da natureza e esse distanciamento faz elas se sentirem autossuficientes. Enxergam apenas o produto final, como se a água que sai da torneira ou das garrafas encontradas nos supermercados não fosse preservada pelo modo de vida dos indígenas, como se a existência da água que bebemos fosse dissociada da existência das chuvas. É a Terra que garante a vida. Se não cuidarmos da natureza, seus ciclos vitais e sua saúde, todos morreremos. Temos no momento atual uma oportunidade de falarmos de uma saúde global, que olha para além da saúde humana, pois engloba a saúde dos animais, dos rios e das florestas. Esta é a saúde que pode nos livrar de novas pandemias e os povos indígenas nos mostram o caminho para ela.

Boaventura também apontou que, durante a pandemia, a extrema-direita divide-se em 2 grupos. Um grupo é negacionista (caso do governo brasileiro), que tenta seguir a vida como se nada estivesse acontecendo: uma decisão genocida e criminosa, pois é desejado por esse grupo que as pessoas continuem trabalhando e as empresas funcionem normalmente para garantir o lucro dos capitalistas e, como consequência, o número de mortes é muito superior ao que poderia ter sido caso as orientações de confinamento fossem adotadas com rigor. Outro grupo é formado pelos que usam a pandemia como pretexto para endurecer o sistema e torná-lo mais autoritário, restringindo a democracia e a liberdade.

Também existe um texto aqui no site, escrito por Tinoco, que demonstra como as mortes por covid-19 estão sendo banalizadas por um governo negacionista. Além de expor uma iniciativa que propõe uma alternativa à invisibilidade que essas vidas perdidas estão recebendo por parte das “autoridades”, transformando números em prosas.

Os governos de direita mostram que não são defensores da vida humana e nem da democracia. Precisamos das esquerdas para defender a democracia, mesmo que seja uma democracia frágil, pois é preciso um “mínimo de liberdade para lutar por libertação”, disse Boaventura. As esquerdas enfrentam, contudo, uma grande dificuldade para unir-se e há muito eurocentrismo em seu meio. Precisamos de esquerdas interculturais, que sejam contra o modelo desenvolvimentista, contra a lógica consumista e individualista que nos leva a todos à ruína. É uma luta, também, das pessoas contra si mesmas, pois elas não dispensam a versão mais atual de um celular. Se não mudarmos nossas prioridades de produção, adaptando-as às verdadeiras necessidades das populações, o resultado será catastrófico.

Boaventura destacou, ainda, a importância de observar o caráter seccional do vírus. Na Suécia, por exemplo, quem mais se contaminou foram os imigrantes e refugiados que estavam no país, pois a grande maioria não tinha condições de cumprir a quarentena. Sônia nos contou que, aqui no Brasil, os povos indígenas enfrentam agora um desafio duplo: o vírus e os ataques de caráter histórico, a saber, as invasões, os assassinatos e as ameaças legislativas com seus novos desafios referentes ao congresso continuar exercendo suas atividades por meio online. Medidas que ameaçam os povos indígenas podem ser tomadas a qualquer momento. Sônia disse que para além da bandeira de luta pela demarcação das terras, agora é necessária a bandeira de luta pela “demarcação das telas”. O que se se mostra ainda mais claro quando observamos o ocorrido na live “espaço de escuta – povos indígenas pedem socorro”, no dia 1° de março.

Essa live teve como objetivo tratar do pedido de socorro do povo Omagua-Kambeba, aldeia indígena que se encontra no interior do Amazonas. Além de ter sido um exemplo prático da ineficiência do Estado desgovernado pela extrema direita, também foi um exemplo claro da linha abissal e da necessidade da aprendizagem intercultural. Vimos mais uma vez, a sociologia das ausências na prática, conto a história a seguir.

A aldeia do povo Omagua-kambeba é um território de fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Lá, durante esta pandemia, não há protocolos para informar a importância do distanciamento social, não há máscaras, álcool em gel, nem nenhuma medida de proteção para esta aldeia que fica distante da cidade. O caminho para a cidade deve ser percorrido de barco, mas está fechado devido ao isolamento social. Um grande problema é que na aldeia não tem assistência médica para o povo Omagua-kambeba. Com o desmantelamento do programa mais médico e a saída dos médicos cubanos do país, os povos indígenas sofreram muito com a falta de profissionais da saúde e agora que enfrentamos a pandemia eles se encontram em uma vulnerabilidade ainda maior e mais revoltante.

Logo no início da live, a linguista e cacique Eronildes Omagua ficou sem sinal de Internet, sua conexão caiu. Boaventura aproveitou para falar sobre a desigualdade informática existente no mundo, pois enquanto uma parcela das pessoas defendem que a Internet serve para democratizar o mundo, o que fica evidenciado são as desigualdades do mundo. Eronildes conseguiu voltar para live e contou que o povo Omagua-kambeba não estava sendo atendido pela saúde indígena porque eram considerados indígenas urbanizados, mas que como podíamos ver, até a Internet é muito precária lá. Eles vivem no meio da floresta e são considerados urbanizados apenas por uma lei que oficializou a área como um município. Ainda assim, é como se indígenas urbanizados deixassem de ser indígenas. “Como pode um governo negar ajuda médica durante uma pandemia à uma população indígena em meio à floresta?”, ela questionou.

Continuou sua fala dizendo que o povo dela está precisando muito de ajuda, porque em meio a uma pandemia ninguém deveria ser obrigado a viver discriminado como eles estão vivendo. Ela disse estava ali para pedir socorro – conexão caiu novamente. ——— Boaventura disse que essa situação funcionava como uma metáfora, uma imagem clara e direta do que se passa no mundo e da invisibilidade dos povos indígenas, também da sua inaudibilidade. Quando até os que são solidários com eles não são capazes de ouvi-los. O povo Omagua-kambeba não recebe assistência médica como indígenas e muito menos como cidadãos brasileiros. Situação que revela a que ponto chegou o caos sanitário brasileiro no atual governo. É de um darwinismo social e insensibilidade ética assustadora. Uma política genocida e criminosa.

A mediadora da live pediu que Boaventura ocupasse o espaço de fala enquanto Eronildes não conseguia voltar e ele contou que sente muito orgulho de estar conectado com Eronildes, porque ela é uma mulher extraordinária, de poder extraordinário e de uma voz poderosíssima. E que o que ele tinha a dizer, portanto, é que estava à espera de que ela entrasse novamente para que todos ouvissem o que ela tem a dizer com a sua simplicidade de expor a verdade. A única estratégia que esse povo tem é fazer a quarentena, o que não conseguem fazer por conta dos garimpeiros, dos criadores de gado e dos missionários, os quais invadem os territórios indígenas impunemente. Boaventura ressaltou a necessidade de a esquerda brasileira olhar para os povos indígenas, disse que deveria haver mais solidariedade e que esta é uma ferida colonial.

Eronildes conseguiu se conectar à live mais uma vez e passaram a palavra para ela. Ela disse: “eu não pude escutar todas as perguntas, mas referente à nossa saúde em toda a pandemia eu gostaria de fazer um apelo em nome das populações indígenas amazonas e a toda Amazônia legal. Como eu sou a voz nesse momento, que os gove…” – conexão caiu novamente. Todos se emocionaram muito. Boaventura disse: “linha abissal”, esta é a linha abissal entre quem é gente e quem não existe. São os indígenas que podem nos indicar o caminho da proteção da natureza que precisamos para o mundo pós pandemia e, no entanto, temos dificuldade em ouvir a voz deles.

Como a Internet é oferecida sob a lógica capitalista, a lógica do mercado, para que teria Internet de qualidade na aldeia se eles não são consumidores? Não compram celulares e computadores. Nos mostra que para o capitalismo, a vida humana não tem valor em si mesma, ela vale aquilo que o mercado determinar.

Sofia escreveu um texto que, assim como o de Claudia, discorre sobre uma alternativa ao desenvolvimentismo. Essa alternativa é a economia de rosquinha. No texto de Sofia ela traz para o espaço de diálogo, ainda, a questão da desigualdade digital, principalmente durante esta pandemia. Seu texto dialoga bastante com algumas das questões discutidas nas lives que estão sendo narradas de forma resumida aqui.

Voltando para Boaventura, ele disse que o que estávamos assistindo era uma ausência presente. Que precisamos ouvir o inaudível. Este é um exercício de aprendizagem intercultural nosso, “sabermos a presença de quem não pode estar presente”. Eronildes é o que ele chama de “estrutura ausente”. Ela é a estrutura da live, mas não está na live, ainda assim, ele podia vê-la. Quando ela não pode falar, ela é ainda mais forte. Essa é a sociologia das ausências na prática: denunciar a ausência de Eronildes e transformá-la em uma emergência que fala conosco na ausência. Por isso o vírus é um pedagogo, e ele está abrindo feridas. Não presenciaríamos a ausência de Eronildes sem a pandemia, pois não estaríamos ali com ela naquelas condições. “Eronildes é uma ausência que está a sangrar na nossa frente”, disse o professor.

Ainda assim, ele disse que sabia que ainda viriam algumas pessoas da esquerda urbana, como já fizeram antes, perguntar: “mas quantos indígenas são? nem chegam a um milhão”, ou seja, “quantos votos é que são?”. E que por essas atitudes, é preciso esclarecer por meio do trabalho de descolonização do conhecimento que quanto menos indígenas são, também são mais preciosos e representativos. Porque significa que o extermínio foi muito grande e ainda está aumentando. Quanto maior é o extermínio, então mais preciosos são os que estão conosco. É por isso que a representatividade não é quantitativa, é qualitativa. Muito difícil para quem pensa política em termos de votos, mas política não é voto. Política é lutar por uma sociedade melhor para todos nós, na qual a inclusão é intercultural, argumentou.

Apesar de serem poucos os indígenas, como vimos, são eles quem podem nos mostrar o caminho da mudança que necessitamos realizar. Eronildes conseguiu voltar mais uma vez para a live, dessa vez, uma das participantes ligou pra ela e mostrou a tela do seu celular para a câmera do computador. Eronildes pediu desculpa por não ter conseguido participar direito do programa. Contou que estão cuidando dos infectados com plantas medicinais, mas que não tem álcool, nem produtos de limpeza e higiene. Muitos não podem ficar em casa porque não estão recebendo nenhum auxílio, nenhuma cesta básica e muitos dele vivem da venda de artesanatos nas ruas, por isso além de sofrerem com a doença, estavam sofrendo com a fome e por isso ela estava na live pedindo socorro. Mas ela disse que sabe que eles são um povo forte, estão sofrendo, mas enfrentando tanto o vírus quanto os invasores e acredita que os povos indígenas vencerão essas batalhas.

Antes de Eronildes se desconectar, Maria Mollica, uma das entrevistadoras da live recitou uma frase dita pela cacique em um outro momento. A frase é a seguinte: “Como se transforma medo em esperança? com parentesco. Cada golpe que sofremos é um ânimo para a luta. A gente é parente pela dor. A gente quer escrever na universidade a história do nosso povo”.

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Lembre-se de que você veio aqui, porque compreendeu a necessidade de lutar contra si mesmo. Agradeça, portanto, a quem lhe proporcione a ocasião para isso.
Gurdjieff
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4 comentários em A cruel pedagogia do vírus: transformando o medo em esperança

  1. Gabriela trouxe neste texto, de forma muito bem articulada, temas abordados por Boaventura de Sousa Santos e lideranças indígenas. Mais uma vez, como temos destacado em posts nos blogs, destaca-se a importância de repensar os modos de vida no planeta, tendo mais respeito pelo ambiente e sendo inclusivos. Apesar do panorama atual não parecer promissor, convido a todos os leitores a se apropriarem dos temas tratados pensando em numa perspectiva propositiva, em como podemos colaborar para mudança que precisamos.

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  2. Gabi,

    obrigado por seu resumo e por sua análise desse encontro especial. Que bom saber que ele existiu, assim como fico contente por Boaventura ter escrito um novo livro sobre os tempos de vírus contemporâneos. As discussões pulsam e as consequências da enorme e variada desigualdade social que assolam o país são escancaradas em tantas crises aglomeradas. Nas populações indígenas, que são plurais e diversas, nada homogêneas, não haveria de ser diferente, infelizmente. É urgente que isso seja debatido e que medidas sejam tomadas de acordo com as especificidades e culturas de cada parcela da sociedade indígena – a qual tanto contribui para a medicina não convencional e outras sabedorias que devem ser consideradas, complementadas às orientações de prevenção da OMS. Medidas direcionadas de combate à pandemia devem ser adotadas em territórios indígenas. Como bem costurou, quanto de simbologia carrega a dificuldade de conexão de Eronildes durante a conversa. Das ironias inapropriadas. Mais uma vez, também parabenizo você por costurar os demais textos aqui do blog! Obrigado!

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  3. Quanta força carregam os povos originários de nossas terras. E quantos ensinamentos nos oferecem, há séculos, sem que tenhamos (nós – a maioria da população ocidental) a sabedoria de ouvi-los e de dialogarmos, buscando a harmonia e o convívio com troca respeitosa. Isso é uma dívida histórica, uma ferida aberta, como bem foi apontado. O diálogo que você fez entre os diversos materiais aqui usados ficou muito enriquecedor, Gabi, e nos oferece a oportunidade de ampliar os olhares e repertórios. A partir das reflexões aqui suscitadas penso ser fundamental que dialoguemos mais sobre esta temática, atentando a todas as variáveis que a complexificam para compreender quais são as relações entre os dilemas dos povos indígenas com os nossos dilemas. Além da questão financeira que determina a ausência da tecnologia necessária ao acesso de qualidade à internet a estas comunidades, penso que são vozes muito fortes e incômodas que, se ampliadas pela internet e ouvidas por mais pessoas, escancarariam ainda mais estas contradições capitalistas que tanto temos debatido aqui nos blogs. Novamente, buscar frestas do sistema – como foram estas transmissões ao vivo com a presença de lideranças indígenas – para ouvir e compreender a história dos povos indígenas, bem como de outras comunidades marginalizadas e violentadas estruturalmente, parece um movimento necessário para termos um posicionamento cada vez mais adequado à totalidade do problema com o qual lidamos. Agradeço a sua iniciativa em compartilhar essas reflexões e em articular discussões que tem sido tão bem desenvolvidas aqui pelas demais colaboradoras nestas páginas.

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  4. Muito obrigado pelo detalhado texto, extremamente rico em reflexões Gabi, foi ótimo relembrar as discussões que vimos na live e voltar a pensar nas temáticas tão relevantes abordadas. É triste ver a forma como as populações indígenas são tratadas no Brasil, realmente eles são muito valiosos e temos muito a aprender… não há duvidas de que um futuro melhor para todos nós deve considerar toda a cultura existente neste planeta. Tenho esperança de que novos horizontes virão no futuro, e que essas pessoas serão de fato respeitadas; o vírus é pedagógico, e não podemos perder a oportunidade de aprender com os erros estrondosos do passado

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